Conselho
Se conselho fosse bom, ninguém dava.
“Posso te dar um conselho?” Quem nunca ouviu essa frase, não é?
Em diferentes momentos da vida, sempre vai ter alguém querendo te ajudar — ou muito pelo contrário. Algumas vezes, dependendo da fase, é recomendável escutar. Tipo: “não ponha o dedo na tomada”. E, mais tarde: “não gaste mais do que você ganha”. Mas tem um tipo de conselho que surge quando a pessoa só quer dizer para os outros que ajudou você, mais do que genuinamente te ajudar.
Dou um exemplo:
Digamos que você está fazendo um churrasco e aquele convidado chega perto e opina: “olha, é melhor bater o sal enquanto a carne ainda está selando”. Se você fizer isso, ele vai dizer que foi o conselho dele que salvou o corte. Se não fizer, e ainda assim estiver bom, ele vai dizer que poderia ficar melhor se você tivesse feito.
Tem também aquela situação que se inverte, e alguém pede um conselho: o que fazer? Isso depende mais dele do que de você. Se perceber que o seu conselho vai ser inútil, pelo menos tente escapar sem se comprometer. Principalmente se o assunto for alguma paixão. Eu tenho um amigo que é louco por carros Puma, aqueles montados em fibra de vidro sobre a carroceria do Fusca. Pois bem, um dia ele trouxe um desses pedindo conselho, se deveria comprar. Dei uma boa olhada e percebi que o assoalho tinha sido remendado com latas de azeite. É claro que recomendei que ele procurasse outro melhor. Mas ele saiu dali e fechou negócio mesmo assim. Voltou duas semanas depois pedindo para eu anunciar o carro, que ele queria passar adiante.
Alguns conselhos envelhecem mal: “leve sempre um lenço de pano e um pente fino no bolso”. Hoje temos lenços descartáveis e, quase sempre, menos cabelo.
Na verdade, eu queria mesmo é contar uma história repassada pelo meu pai, há muito tempo, também a título de conselho:
Ei-la:
Dizia-se que, numa cidade pequena e pacata de Santa Catarina, a rivalidade entre os torcedores dos dois tradicionais times de várzea era maior do que os grandes do eixo Rio-São Paulo. Todo final de semana havia jogo e discussão nas arquibancadas.
Numa dessas ocasiões, talvez final de campeonato, os ânimos se exaltaram ainda mais, não só envolvendo jogadores e juízes, mas os torcedores, que foram colocando até a vida pregressa das respectivas mães em campo. A coisa escalou de tal forma que houve a inevitável invasão e confusão generalizada.
E, no meio do furdunço, estava o Pipi.
(Não, eu não inventei essa alcunha, já veio contada assim para mim. Não faço ideia do porquê do apelido…)
Pois o Pipi era conhecido na cidade como um cara alto e forte, mas de boa índole, com uma paixão avassaladora pelo seu time. E que, naquela ocasião, indignado com a covardia dos torcedores adversários armados até com pedaços de pau e tijolos, resolveu entrar na briga para defender seus companheiros de torcida.
No meio da multidão, Pipi viu-se frente a frente com um torcedor adversário. Que caminhava ameaçadoramente em direção a ele, com a mão no bolso de trás, numa época em que homem ia a jogo de futebol de calça social e pente de plástico no bolso.
E foi por isso que o Pipi acreditou quando ouviu alguém gritar, no calor da peleja:
— Vai, Pipi, que é um pente!
E ele foi. Avançou resoluto em direção ao enfrentamento, mas não teve nem tempo de desviar quando o outro puxou do bolso a navalha afiada e abriu um enorme corte horizontal na sua testa.
Por isso, fica aqui o conselho: não confie em qualquer conselho.
E, se puder, leve sempre uma navalha no bolso.



