A Caixa (parte 1)
Comédia mini-séria em quatro partes
Sobre o único móvel na sala do apartamento, a mesa de madeira recém-montada, o telefone tocava com aquela insistência que os celulares costumam ter quando alguém acaba de entrar no banho e está sozinho em casa. No display, a mensagem “NÚMERO DESCONHECIDO” piscava, vibrando com urgência, cada vez mais próximo da borda e da queda iminente. Ao ouvir o toque distante, o homem desligou o chuveiro e saiu correndo nu, a passos molhados, escorregando pelo corredor em equilíbrio instável. Conseguiu apoiar-se nas paredes até chegar à mesa, atendendo-o no momento exato em que o aparelho estava quase caindo — e a ligação, na caixa postal.
– Até que enfim, seu patife! — vociferou uma voz masculina, embriagada, do outro lado da linha.
– Alô?! Com quem quer falar?
– Pára com isso, Alcebíades. Eu sei de tudo. Encontrei seu número registrado no celular da Helena. Ou vai dizer que não…?
Vacilou por um ou dois instantes, antes de responder:
– Desculpe, amigo. Aqui não tem nenhum Alcebíades.
– Amigo é a puta que o pariu. Eu sei onde você mora e tô indo aí te dar uma surra, seu merda!
– Aqui é 99979 8790. Não tem nenhum Alcebíades aqui, não. É engano.
– Engano de cu é rola! Me espere, que quando eu chegar aí, você vai ver o que é bom, Alcebíades! Mexeu com a mulher dos outros, tem que ser macho pra aguentar as consequências agora…
– Tá certo, parceiro — admitiu o homem. — Faz o que você tem que fazer. Pode vir, que eu estou cagando pra você. Vem me dar uma surra então, se você é homem!
Desligou o telefone na cara do bêbado. Acendeu um cigarro. Naquele dia, provavelmente, o tal Alcebíades ia apanhar pra caralho.
II.
Pedro estava morando ali só há duas semanas. A decisão pela separação havia sido muito dura, sobretudo porque não veio dele. Teve que empacotar as coisas e entregar as chaves da casa na qual viveu, com mulher e filho, nos últimos sete anos. Alugou aquele apartamento às pressas, e até que não era ruim. Prédio recém-construído, cheiro de tinta em primeira locação, dois quartos, sala, banheiro e cozinha — pequeno, mas confortável. Desconforto era outro: sua ex-família mudou-se provisoriamente para a casa da sogra, onde ele era persona non grata mesmo antes do eventual naufrágio do relacionamento.
Destroços da sua vida passada: no quarto maior, roupas amassadas sobre o colchão e os livros em pilhas, escoradas na parede. No quarto menor, um sofá pequeno para visitas, como seu filho Pedrinho seria a partir de agora. Na minúscula cozinha, um fogão de quatro bocas e a geladeira, utilizada para manter frescas as pilhas alcalinas e a garrafa de vinho com água de torneira. Finalmente, na sala, além da mesa de madeira e cadeiras, várias caixas de papelão vazias, sobreviventes da mudança, completavam a decoração improvisada.
Desde que chegou ao condomínio, Pedro não tivera oportunidade ou ânimo para estabelecer contato com os novos vizinhos. Conhecia de vista o porteiro do dia; e já havia trocado uma ou duas palavras com o porteiro noturno, já que com esse tinha maior afinidade de horários devido à rotina do seu trabalho em agência de publicidade. O resto do tempo, quando não estava dormindo, estava sozinho, trancado no apartamento. Até o dia em que, passando pela portaria em direção ao elevador, foi avisado:
– Doutor, chegou encomenda pro senhor.
Pedro achou estranho. Não esperava receber nada, nem tinha comunicado o novo endereço a ninguém. Era uma caixa de papelão marrom comum, lacrada. Não era muito grande ou pesada, apenas o suficiente para incomodar quem precisasse carregá-la nos braços, sozinho. Também não tinha remetente. Só a etiqueta de endereçamento:
“Para: Alcebíades — apto. 701”.
Era o número do apartamento de Pedro. Sentiu um calafrio.
– Tudo bem com o senhor, seu Alcebíades? — indagou o porteiro.
(continua no próximo episódio: Parte 2 )



