A Caixa (parte 2)
Comédia mini-séria em quatro partes
(Pra quem perdeu o capítulo anterior: Parte 1 )
III.
Definitivamente, aquilo era muito estranho: Alcebíades. Nunca conhecera um Alcebíades na vida. Lembrou-se, na hora, do telefonema da noite anterior. O marido traído, duplamente enganado — no casamento e no número de telefone. Seria só coincidência? Talvez. Mas o que o surpreendeu mesmo foi o Alcebíades aparecer assim, duas vezes seguidas, na sua vida. Sujeito com um nome aparentemente tão pacífico, que ele considerava quase bovino, não poderia meter medo — ou chifre — em ninguém.
Ligou para a imobiliária, tentando saber se ele não seria um possível locatário que desistiu do apartamento. Não, não havia registro de cliente que se chamasse assim. Os porteiros também garantiram que nenhum vizinho ali era Alcebíades. Afinal, com esse nome, eles lembrariam…
Pedro informou-se sobre o horário de visita do carteiro e saiu mais cedo do trabalho para, pessoalmente, fazer a devolução formal da caixa. Destinatário não encontrado, tentou argumentar.
– Como assim, não encontrado? O porteiro até reconheceu o seu nome…
– Mas Alcebíades não é o meu nome!
– Eu sinto muito. Quer dizer, que bom para o senhor… veja bem, o problema agora não está mais comigo. Minha obrigação eu cumpri, que é entregar. Não é a de trazer de volta.
– Tá certo, seu carteiro, e se eu levar essa caixa no Correio, eles aceitam de volta? — Pedro argumentou.
– Sem remetente? Acho difícil, mas… — o carteiro coçou a cabeça, na dúvida. — O que é que tem aí?
Boa pergunta. Pedro não havia aberto a caixa.
– Bem que o senhor faz — avisou o carteiro. — Violação de correspondência é crime. Eu que o diga…
O carteiro percebeu o ato falho e tentou desviar o rumo da conversa:
– Pensando bem, se eu fosse o senhor, ficava com essa caixa, não arriscava, não. Lá eles vão dar um chá de sumiço nisso, ainda mais sem remetente… e o destinatário, o tal de Alcebíades, tentou procurar?
– Procurar como, sem o sobrenome? Só se eu marcasse, um a um, os Alcebíades na lista telefônica…
Talvez isso não fosse tão difícil. Os Alcebíades deveriam ser bem raros. Mais raros do que eles, só as listas telefônicas…
O carteiro ergueu os ombros, despediu-se e deu as costas, carregando o trabalho adiante. E a caixa sem alça ficou lá, no apartamento do Pedro.
IV.
Pedro prometeu a si mesmo que ia resolver aquele impasse logo. Mas assumiu o propósito de não abrir a embalagem, primeiro por uma questão de princípios. A caixa não era para ele, era para o Alcebíades. Quem sabe o tal sujeito não apareceria espontaneamente, nos próximos dias, procurando sua encomenda? Depois, ainda que não admitisse racionalmente, tinha um certo medo do que poderia estar guardado ali.
Vai que o remetente era aquele marido traído…
E se ele, que não era o Alcebíades, acabasse sendo a vítima de uma vingança, ou de uma bomba-relógio? Tentou ouvir o tic-tac. Nada. Balançou a caixa. Pelo menos não explodiu, naquele momento.
E se, então, dentro da embalagem, estivesse alguma coisa horrível? Quem sabe até, como naquele filme antigo, a cabeça cortada da tal Helena, a infiel?
Melhor deixá-la quieta, no seu canto. A única indevassada dentre as caixas espalhadas pela sala.
Nisso, tocou o telefone. Não era o marido traído. Nem o Alcebíades.
(continua na Parte 3)



