A Caixa (parte 3)
Comédia mini-séria em quatro partes
(Pra quem perdeu o capítulo anterior: Parte 2 )
V.
Fim de semana chegando. A ex-mulher de Pedro cumpriria o combinado pelo telefone: permitiria que ele passasse algumas horas com o filho, Pedrinho, no shopping.
O menino correu e se jogou nos braços do pai. Com ele não veio a mãe, esperança secreta de Pedro, mas só a avó/sogra, com sua cara amassada e sorriso que parecia amarrado à boca com um barbante. Quanto ao menino, mais do que encontrar o pai, estava mesmo era indócil para passear livremente no shopping. Antes assim, mais saudável observar as vitrines das lojas em vésperas de Natal do que permanecer trancado em casa, o dia todo em frente à televisão. Ou do que desperdiçar a tarde de sábado num apartamento vazio, onde só haviam caixas e caixas de papelão para brincar.
VI.
Se perguntassem ao menino de quem ele gostava mais, se era do pai, da mãe ou da avó, dizia que gostava mais do Homem de Ferro, do Hulk e do Homem-Aranha. Então, enquanto esperavam a sogra procurar alguma coisa no supermercado do shopping, Pedrinho sentou-se no chão, em frente a uma das televisões do mostruário da loja, hipnotizado por um filme que reunia todos os seus super-heróis. E o pai, em pé ao seu lado, até se esforçava para entender o enredo do filme. Mas a cabeça de Pedro estava em outro lugar — na caixa. Aliás, a maior parte da semana ele passou pensando nisso.
– Seria o prêmio de alguma promoção?
No fim do corredor, um funcionário do mercado empurrava um carrinho lotado com caixas e mais caixas de papelão, abastecendo as prateleiras com produtos. Engraçado, filosofou, como a gente só repara nas coisas (e nas caixas) quando tem um problema com elas…
Nisso, cadê Pedrinho?
Em frente à televisão, não estava mais.
Olhou ao redor, atônito. Teria ido procurar a avó?
Precisava pensar rapidamente. Se o menino não estivesse com a velha, era melhor achá-lo antes dela. Rodou entre gôndolas. Nada dele. Encontrou antes a sogra, na seção de higiene e beleza, escolhendo tintura para o cabelo.
Sozinha.
“Cadê-o-Pedrinho?” — ralhou ela, subindo o tom.
Pedro nem respondeu. Passou pela fila dos caixas voando e saiu do supermercado, ampliando seu perímetro de busca para o corredor shopping.
Nada.
Apavorado, como último recurso, correu ao serviço da cabine de som no andar térreo do shopping, tentando achar um jeito de anunciar discretamente, mas em alto e bom som, toda a sua incompetência como pai.
E não era o único.
Com o movimento que antecede o Natal nas lojas, muito mais gente ia até lá, tentando localizar pertences ou entes perdidos. Pedro ainda estava no fim da fila quando ouviu a voz da moça da cabine saindo pelos alto falantes do shopping:
– Atenção, senhor Alcebíades! Alcebíades: sua esposa o espera na livraria, no terceiro andar…
A livraria!
Pedrinho adorava livros. Deveria estar lá…
VII.
Pedro saiu correndo pelas escadas rolantes e chegou até o terceiro andar. Na porta da livraria, ofegante, deu-se conta: e se desse de cara não com Pedrinho, mas com a tal mulher do Alcebíades? Ou com próprio? Ou pior, com o marido corno do Alcebíades? Ou, melhor dizendo, com o marido corno da Helena, amante do Alcebíades? Sentiu-se perdendo o juízo, ao tentar adivinhar a fisionomia desses desconhecidos em meio à multidão.
Foi então que o viu, de longe. Era ele.
Sentado calmamente numa mesa de leitura, Pedrinho entretinha-se em desenhar num livrinho de figuras. Era uma dessas publicações em preto-e-branco, feitas para as pessoas pintarem e desestressarem. Absoluto sucesso como terapia ocupacional para adultos. Principalmente para os casais.
O menino deve tê-lo encontrado jogado em meio a outros. Livro bem detalhado, com sugestivas e explícitas cenas sexuais, as quais, inocentemente, ele já havia começado a colorir. Arte que, com certeza, não agradaria à mãe, quando soubesse. E ela haveria de saber, pela língua comprida da sogra de Pedro, que chegou até o menino antes dele.
(continua na parte final: Parte 4)



